Crescente Roberta

Conhece a Robertinha?

Foi assim que tudo isso começou. Com a pergunta do amigo Edu que logo fez questão de me apresentar a Roberta Nunes e seus inúmeros feitos. Aquilo mexeu comigo em vários aspectos. Mulher, brasileira, escaladora e eu sabendo nada sobre ela. Até aí tudo bem. Nunca fui de pesquisar muito sobre a escalada. Mas isso me pareceu um padrão dos tempos atuais. Um padrão negativo, eu diria. Roberta precisa ser lembrada.

Foi como se a gente quisesse conversar. Toda a razão desse blog partiu da minha necessidade de falar sobre ela. A pesquisa começou junto com a construção do DesEscalada e acabou tomando outras proporções. Como surpresa, coisas do climb, o planejado foi replanejado e replanejado e replanejado…

Me senti em uma via de infinitas cordadas e variadas parcerias. Não consegui conversar nem com metade das pessoas que gostaria mas senti cada vez mais a energia da Roberta crescendo e me acompanhando nessa escalada.

A proposta inicial era apresentar a mulher escaladora e não a escaladora mulher. Essa, cheia de conquistas e realizações, já foi muito apresentada, com seu currículo sendo copiado e colado em várias páginas. Nada contra, porque é um sincero currículo, mas não era a minha motivação. Tomei como ponto de partida os textos da própria Roberta. Como disse, queria conversar com ela. Achei os artigos da Alta Montanha que me levaram para a Webventure e posteriormente para o site da Roberta.

Esse caminho não era linear. Cada referência me demandava uma quebra nessa escalada. Achei uma fala sobre o Duda numa viagem de escalada em Bishop. Sendo de Brasília, segui esse rumo. Fiquei curiosa em saber como era a Roberta escaladora de boulder. Até então eu só imaginava ela nas grande montanhas!

O Duda sorriu tão gostoso (áudio de whats app). Falou de uma Robertinha escalando todos os estilos. Me levou ao Juca (Flávio Cantéli) e então minha escalada pareceu ir por água abaixo.

Não por ele, pelo contrário. Uma empolgação emocionante que me trouxe uma energia da Roberta o mais próxima do que eu realmente desejava alcançar. Queria conhecer a Robertinha! Poder chamá-la assim mesmo depois de mais de 10 anos de sua morte. A escalada mudou porque percebi que não seria capaz de falar dela em uma única lua crescente. Não conseguiria. Nem o Duda. Nem o Juca. Ela é muito maior que isso.

Mas eu tinha um cronograma a seguir e precisava me encontrar com ela. Voltei para o site. Em seu perfil, duas citações de arrepiar meio que me preparam para entrar no universo daquela página.

“Quando aperto o passo, meu organismo se motiva tanto que não posso permanecer quieto. É como se algo quisesse ser reinventado dentro de mim, algo que pede para sair de meu peito. Uma espécie de sensação que me transporta como se fosse um pássaro.”
Reinhold Messner – 1979

“O cume, como tal, não é tão importante; agora, vejam bem, é um lugar em que se manifesta com mais claridade até onde alcança minha fortaleza. Através dela consigo um equilíbrio espiritual que não poderia sentir em uma ascensão sem êxito… sim, sou capaz de expressar toda minha energia, de aplica-la em um só ponto, e esta regressa a mim transformada.”
Alessandro Gogna – 1979

Com um perfil desse percebi que ela não facilitaria as coisas para mim. Eu não sairia dali com um texto pronto e muito menos com uma cadena Robertinha no bolso.

Pensei: preciso vê-la um pouco. Isso vai me ajudar. Vou em busca do Patagônia Promise. Mas o filme é sobre as suas cinzas. Talvez não fosse o momento pra esse vídeo. De alguma forma a energia acumulada nessa busca me fez chorar… seria esse um sinal de proximidade? Ou apenas sensibilidade aflorada pela lua crescente? Voltei para os textos e comecei com a Slack. Caramba Roberta! Você foi a primeira mulher a atravessar um highline de 10 metros de comprimento, a 300 metros do chão, no pico Rostrum.

“Custou-me três vezes até eu realmente acreditar que era possível. Tenho este momento marcadinho como algo mágico que me aconteceu. Serviu muito para me mostrar os níveis de concentração que podemos chegar e a maravilha que é ampliar nossos limites.”

Da slack vou pra Groelândia. Foi sem dúvida o texto seu que mais me chamou atenção! E pensar que você remou 80 km pra abrir essa linha! A slack já foi uma surpresa, mas o kaiaque!!! Te imaginei nas corridas de aventura. Certeza que iria arrebentar!

Procurei muito pelo filme dessa viagem, Hidrofilia. Achei apenas esse trailer surreal que me entregou uma busca que vai além desse post. Aqueles que puderem me ajudar, vamos assistir Hidrofilia juntos!

“No final deste mesmo dia quando já estávamos acabados de tanto remar, as baleias aparecem jogando jatos de água para cima.”

Quase consegui ouvir o som dos seus gritos… que história. Você entrou pra história de novo. Sobre essa escalada, gratidão pelo relato:

“Não sabíamos se chorávamos ou riamos ou reclamávamos das dores no corpo que começavam com a queda de temperatura. Era tão forte a sensação de estar em um sonho de verdade, difícil até de assimila-lo na hora, comprovamos definitivamente que éramos os primeiros humanos a pisar ali, não tinha nenhum outro sinal contrário.”

Agora você me leva para os Estados Unidos. É 2005 e você é a primeira sul-americana a escalar o El Captain por uma rota de grade VI (necessário de 3 a 5 dias para sua ascensão) em menos de 24 horas.

“Depois de acompanhar bem as informações meteorológicas, arriscamos mais uma vez “correr contra o tempo”; é exatamente esta sensação que passa, um romper com os limites de nosso corpo e mente. Uma sensação de força e amplidão.”

Engraçado perceber que de alguma forma sua cabeça estava na Patagônia. Isso está no final do seu texto e também em outro vídeo que acabou chegando a mim.

“Agora, depois desta experiência, sinto-me mais preparada para aventurar-me nas inóspitas montanhas da Patagônia, com partida para a Argentina no final deste ano, por três meses.”

O vídeo é 2006-Saudades da Rober, de Maurício Clauzet “ToNTo” Hang On. Não consegui falar com o Maurício durante a minha pesquisa. Mas esse vídeo me mostrou muito da Roberta. Espero, Maurício, te mostrar esse texto antes de publicar. Gratidão.

Ainda não cheguei na Patagônia. Não pelas suas palavras. Antes vamos pro Chile. Em Cochamo confirmo uma Roberta conectada com a escalada feminina. No filme do Maurício você já fala disso. Na verdade me surpreendeu com uma frase que não havia escutado antes, quando voce aborda o equilíbrio de dois homens escalando juntos e a possibilidade desse mesmo equilíbrio entre duas mulheres escalando juntas.

“Com esta investida nos sentimos saciadas de aventura apimentada e com a certeza de que podemos seguir escalando juntas, nada melhor que situações limitantes para se conhecer realmente.”

Curioso o jeito que você termina esse texto de Cochamo. Com um “Qualquer dúvida entre em contato.” Tô eu aqui, cheia de dúvidas, te perturbando palavra por palavra.

Nossa conversa tá acabando… Falta a Patagônia em 2006. Tento desviar do meu pensamento o fato de que meses depois você se despede. Afinal, estamos aqui né.

“Realmente é emocionante, coração bate mais forte e paira um sentido contemplativo com tal beleza natural. Sim estávamos todos diante de nosso maior sonho.”

Como meus planos com esse texto, os seus também mudaram. Em meio a esse turbilhão de possibilidades, pensei em desistir de tudo. Seus olhos me despertaram uma imensa vontade de apenas publicar todas as fotos possíveis e o silêncio. Que olhos hein Roberta!

“Acabei me tornando a segunda mulher no mundo a realizar este feito, que chega a ser quase que um sonho em Chaltén, de dois grandes cumes em poucas horas. Retorno ao campo base 3 kilos mais magra, mãos raladas e com uma alegria que explodia em meus olhos por tanta emoção e por estar viva! “

Sempre que penso em escrever, entro em processos criativos que me entregam o início e fim de um texto. Cheguei aqui sem saber para onde ir. Desando a chorar com o fim da nossa conversa.

“A volta para este lugar tão mágico é uma certeza, onde podemos sentir a intensidades dos minutos como momentos de uma real aventura.”


9 comentários em “Crescente Roberta

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