Nova Amélia – A escalada como observação da vida.

Eureka!

Cê já deve ter ouvido essa expressão. Pra mim ela quer dizer muito sobre
observação. Dizem que na Grécia antiga, na época onde os sábios eram tudo (artistas, filósofos, matemáticos…), Arquimedes desvendou um de seus problemas científicos ao entrar numa banheira e observar que sua massa, ao entrar naquele espaço já ocupado, empurrava uma quantidade de água para fora. Daí saiu a gritar “Eureka!”, que quer dizer, em grego, “encontrei”/”descobri”.

Esse tal observar a vida nos ensina é muito. Vê só, cê já deve ter passado por alguma situação em que olhando pro próprio viver veio aquela sensação de “eureka!”. Eu já. Tenho essa mania de me pôr a observar e a escalada me permitiu experienciar alguns dos aprendizados sobre a vida que mais me transformaram. E é isso que eu quero contar pr’ocê. Separei 3 para te falar, chega mais!

1. A solitude na observação do que é necessário.

Acredito que eu ainda não tenha digerido por inteiro a experiência do meu primeiro big wall. Eu era nova no esporte e me convidaram para fazer uma via um tanto quanto mais longa: quase 1200 m, com uma noite bivacando no caminho. Me preparei fisicamente para isso, e, pelo tempo que faz, meu corpo já descansou do estresse físico que uma atividade como essa gera. Mas tem coisa que a cabeça leva tempo pra processar.

A escalada tradicional tem um quê de solidão. Ou melhor, solitude. É uma introspecção que te leva a mergulhar em si. Estar nesse estado de solitude, que cê pode assemelhar a concentração ou a meditação, naturalmente te leva a adentrar na psiquê. Ah, o poder do silêncio! Mas ó, existe um algo a mais aí por se tratar de um esporte de aventura: se deparar mais de perto com a possibilidade da morte. Evitemos os julgamentos de valor que essa palavra causa. Quero te propor que cê só observe: você está na parede, escalando e consciente dos riscos, neste momento, o que é realmente necessário?

Aqui com o pé no chão, seguindo a rotina do dia a dia, a gente se perde numa busca por uma felicidade irreal. Uma felicidade que é ligada diretamente à necessidade. É como se, pra ser feliz, “eu preciso ter isso”, “eu preciso estar próxima desta pessoa”. Acontece uma transferência da sua alegria para algo ou alguém. E quanto sofrimento isso gera, num é?

(…) Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya/ilusão. Ou samsara / círculo vicioso. Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade. (…)

Gosto da carta que Caio Fernando Abreu escreveu a Zézim. Quem me acompanha no Instagram pode ser que saiba que eu gosto de acreditar que ele escreveu pra mim. Queria repetir essas palavras pro cê, escaladora. Que talvez qualquer eureka! Que o que tenha acontecido esteja ligado a uma busca pessoal minha. Mas foi ali na pedra que, com minha solitude, eu pude experienciar que é necessário muito menos do que eu acreditava. E esse sentir é de uma importância, num é?! E me conta, pra você, o que é realmente necessário?

2. Cada um tem seu processo.

Nesse tal viver cada um segue seu ritmo. E, na escalada, a gente consegue enxergar isso de uma forma muito clara. Cê deve conhecer alguém que evoluiu super rápido enquanto você ainda penava para consolidar um grau inferior. Sempre há de ter. Assim como provavelmente exista alguém que tenha um pouco mais de dificuldade. Ó, cada um tem seu processo.

Eu gosto da solitude da escalada tradicional, acho incrível como que, diferente de mim, algumas amigas mandam super bem na explosão do boulder. Tive que treinar muito para conseguir fazer um v2 que seja e com só um ano de escalada havia me jogado num big wall dividindo as cordadas com os caras que me acompanhavam. Te escrevo isso ainda no meu processo, eu me cobro um pouco e tenho enxergado por meio da escalada o sofrimento que isso me causa. E mais uma vez aqui a diferença entre o saber e o sentir. O saber é simples: cada um tem sua facilidade e sua dificuldade. Cada um tem seu tempo de aprendizado. Cada um é cada um, tentando lidar da melhor forma com seu processo. Na escalada e na vida.

Num sei se existe algum caso onde realmente seja necessária a comparação no esporte. Talvez se olharmos como uma competição, onde há um ranking e é o seu trabalho, isso possa te gerar também algum aprendizado. Mas até em algum caso extremo como este, internalizar esse saber vai te trazer uma boa dose de calmaria na tempestade.

3. Com a força vem a coragem.

Roubei essa frase de uma escaladora que eu admiro muito (Branquinha <3):

Com a força vem a coragem!

Isso é de uma boniteza só. No que eu quero te dizer, a gente pode exemplificar por meio da famosa “zona de conforto”. Pra me superar, a escalada me convida dia após dia a que eu saia da minha zona de conforto. seja dando a cara a tapa numa via mais difícil ou acalmando a cabeça para fazer uma cordada exposta. Esse segundo exemplo para mim é importante, pois temos a mania de ligar “força” à “força física”.

Acredito que força venha também de uma consciência e maturidade emocional. E é exatamente nesse ponto que a experiência da escalada mudou minha vida. Aqui, acho que mais que experienciar, o esporte me permitiu treinar o equilíbrio emocional. Quando escalo, me ponho a me observar: o nervosismo chegando e meu corpo reagindo a ele, a cabeça querendo me sabotar, e corpo travado diante do desafio. deixa eu te contar uma história!

Se cê leu até aqui, já deve ter concluído que eu tenho uma certa dificuldade com movis negativos. Hoje, depois de treinar a parte física, grande parte dessa dificuldade vem da cabeça me travando. Ó um dia desses fui fazer uma via em São Thomé, meu grau, uma viradinha de teto, agarrão. Dava pra fazer. Mas fiquei ali travada no teto lutando contra o meu Eu até conseguir a coragem que precisava para fazer o movimento. Num era força física que me faltava, tava tudo na minha cabeça.

A gente se depara com essa situação na vida sempre que temos que romper nossa zona de conforto: trocar de emprego, abrir um negócio, se propor uma nova experiência. E a força que a escalada me deu não fez só com que o meu corpo modificasse, é uma coragem que vai além, e que também dá força pra seguir. Coragem para romper e abrir caminhos. Porque, quando o medo chega, eu reconheço: o nervosismo chegando e meu corpo reagindo a ele, a cabeça querendo me sabotar, e corpo travado diante do desafio… já foi experienciado!

Viver é perigoso.

Dizia Guimarães Rosa. Mas é de uma beleza que basta cê saber observar e sentir. E nada melhor que fazer isso na pedra, que há de ter, passarin, um caminho no meio da pedra, seja nessas que a gente sobe, seja na que Drummond se deparou com suas retinas tão fatigadas. Mas que a gente saiba olhar e encontrar no meio dos caminhos a poesia para se viver!

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