Isoladamente falando?

No universo da escalada usamos muito a palavra Isolar. Por definição, significa afastar, separar, pôr à parte. No nosso mundo, trabalhar um movimento do climb separadamente.

Mas o isolar acontece em outros aspectos também. Estamos falando de gênero. E principalmente de percepção.

Na escalada, e em outros esportes, existe um comportamento de aceitação da presença feminina. Quem quer bancar o machista abertamente nos dias atuais? Ninguém, creio eu. Mas existem situações e construções difíceis de serem extintas do nosso dia a dia, principalmente quando pensamos em interseccionalidade (gênero, raça, política…).

Vou tentar explicar melhor: não me considero machista na escalada; sempre tenho minas nos meus bondes; mas faço piada na balada sobre a garota que nao atende aos meus padroes de beleza; ou reclamo da chefa negra que conquistou aquele cargo antes de mim e que sai mais cedo pra amamentar o filho…

Está tudo intrinsecamente relacionado. E não se engane, presente no pico de escalada.

Vamos dar exemplos práticos (fictícios ou não). A mina manda o boulder de graduação difícil e eu… entenda EU como o homem escalador que ainda não está completamente desconstruidão. Bom, eu sinto uma necessidade interna enorme de conquistar aquela cadena. Acredito até que possa fazer de um jeito mais fácil. Sou capaz. Biologicamente mais propício a essa conquista. E quem sabe até questione a graduação desse climb. Mas nada contra as mulheres. Tô só escalando de boa.

Eu cheguei num pico novo e estou abrindo algumas linhas. Tem de tudo. Coisas fáceis e difíceis. Acabo de abrir um V0 muito massa. Vou trazer minha mina aqui pra aprender. Vai que ela gosta de escalar e nosso relacionamento melhora! Ela vai parar de reclamar que eu só penso em escalada. Já sei, vou chamar esse V0 de Boulder das Minas! Vale pra via também.

Eu mando um super projeto! Linha nova! Tava na vibe da mana que fez a segue e teve paciência com todo o processo de evolução. Cadena!!! Vou escolher o nome. Mas será que posso fazer uma referência feminina? Qual o grau vou sugerir? Dependendo do grau, um nome feminino pode não ficar legal. Não seria tão clássico…

E os exemplos nao param no universo marculino. Quando falamos de machismo estamos falando de modelos de identidade disponíveis para os dois universos, sendo aceitos por todos e conduzidos pelo homem. Podemos trabalhar comportamentos machistas entre mulheres que preferem a segurança masculina, em questões de relacionamento, vestimentas ou mesmo prática dedicada ao esporte. Somos machistas. É de fato uma representação dominante difícil de ser alterada.

Aí você deve estar se perguntando sobre como trabalhar esse processo de mudança. Eu (Marília) me pergunto constantemente. Que caminhos seguir? Como não ser a mina de alguém? Como conquistar seu espaço e com isso apresentar condições para a mudança? Como não passar desapercebida com suas ideologias quando se faz uso de ferramentas estruturais? Por exemplo: o natural nesse processo de reconquista de espaço feminino é arregaçar as mangas. É se voltar para o mundo exterior. As mulheres fizeram e fazem isso muito bem no mercado de trabalho. Na escalada: treinar muito; ficar MONSTRA e mandar projetos difíceis até para homens; ganhar o respeito no climb.

Mas ai, assim como nas outras relações sociais, econômicas e blá blá blá, o interno fica de lado. A conexão com o feminino, que tem grandes chances de curar o machismo estrutural e reverberar no mundo externo, não é acessada. E então entramos nesse ciclo vicioso de acharmos que estamos desconstruindo, mas seguimos juntinho com a roda, girando sem provocar grandes desconfortos e enfrentamentos.

Confuso né! Como uma lua minguante pode ser. Então, a proposta desse texto não é polemizar pura e simplesmente. Não é apontar direta ou vagamente problemas externos, pessoais, inexistentes (há quem diga que está tudo bem no mundo). Mas podemos, com um emaranhado de palavras, propor o fim do isolamento. Permitir que as pessoas fluam como são, movs de uma linha perfeita, pra começarmos de fato a construção do respeito. Independente do gênero.

Na lua minguante revemos nossas intenções, nossas ações e pedimos e caminhamos em busca do desapego daquilo que não nos serve mais. Aproveitamos a escuridão da noite pra olharmos pras nossas sombras e identificarmos formas de aplicar luz onde não há. Então aproveita e dá um confere no seu mundo da escalada e pensa em como você pode agir, pensar, fluir em prol da evolução do esporte sem isolar ninguém.

Referência: DRUMONT, M. P. Elementos para uma análise do machismo. Perspectivas, São Paulo, 3: 81-85, 1989. Disponível em: <https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/viewFile/1696/1377&gt;. Acesso em: 24 de julho de 2019.

3 comentários em “Isoladamente falando?

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  1. Ahhh muito bom!! E ao mesmo tempo me pego pensando nos homens lendo isso, falando pelos que eu conheço, não acho que eles se viriam numa figura machista mesmo fazendo tudo isso e mais um pouco.. mas nós vamos conquistando nosso espaço!!

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  2. Acho que no Climb existe um processo de ego em saber sempre quem manda o Boulder ou a Via mais hard.

    Em geral, as pessoas se esquecem de viver o processo interno e a jornada para poder chegar até lá. E tendo esse foco, passam por cima de mulheres e até mesmo outros homens, e mulheres por cima de outras mulheres. Pq como que vou estar num bonde com uma galera que não manda nada acima de V5?!

    Enfim, acho que tá faltando olhar para si e para os outros e perceber que somos todos seres humanos apesar de tudo, e, que realmente, todos temos limitações. E perceber que a maior cadena que existe é poder dar a vibe, trocar experiências e viver a grande jornada da vida.

    Curtido por 1 pessoa

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