Cheia Nay!

Meu nome é Nayara, tenho 27 anos, sou geógrafa e regida pelo sol em sagitário, sob ascendência em sagitário e a lua em touro. Observo que esses posicionamentos astrais sempre me levaram ao movimento e a minha vida é marcada por eles. Sou nascida em Brasília, numa junção amorosa, como assim gosto de dizer, entre dois estados, Pernambuco e Minas Gerais. Morei por toda a minha vida no Distrito Federal, porém perdi a conta de quantas vezes mudei de casa, quantas escolas estudei ou quantas regiões administrativas morei. Até aí muita história para contar.


Há exatos quatro anos descobri a escalada, havia encerrado o ciclo de 2014 angustiada, não me sentia feliz, tinha encerrado um grande projeto profissional como social mídia em um cargo de prestígio e também um relacionamento amoroso. Era um momento que precisava me acolher e ser acolhida, então fiz um movimento contrário ao que estava projetando há tempos e voltei para casa da família, fui morar com a minha vó. Esse momento foi de muita reconstrução, comecei a pensar como poderia mudar a minha vida e me conectar comigo mesma, havia uma grande lacuna existencial ali e eu não sabia nem por onde começar a trilhar esse caminho. Foi quando no réveillon do mesmo ano em uma viagem à chapada com as amigas, uma delas escaladora, começou a me contar sobre o mundo da escalada (gratidão isa!). Nesse momento meu universo abriu, eu que nunca tinha escalado, voltei dessa viagem só pensando nisso. Me matriculei na primeira semana do ano em uma academia e me joguei de cabeça! Logo após, buscando me conectar com a minha espiritualidade, vivenciei um ritual com a sagrada medicina, Ahayuasca, sob o tema da “impermanência”, ali eu começava a conectar as peças desse quebra-cabeça e me conectar com o meu íntimo, longe de tudo estar de alguma forma resolvido, o trabalho acabara de começar.


A escalada sempre foi uma dádiva na minha vida, através dela consegui compreender como poderia acessar meu estado de paz de espírito, quando descobri que podia então fazer tudo isso no meio da natureza e ser parte dela e que apenas o ato de observar a respiração me colocava em conexão com o aqui e o agora, me senti como se tivesse realmente encontrado um propósito de vida e que esse, não estaria de certa forma ligado aos preceitos estruturados por um sistema capitalista opressor e um modo de produção agressivo que não se sustenta em si e que sobretudo eu já não acreditava. Queria nesse momento fugir da cidade, sair da babilônia e ai a ficha caiu! Estava perdidamente apaixonada pelo esporte e pelo nosso cocal, rs.
E que comecem os projetos! Nos primeiros contatos com a pedra, é lógico, o bumbum nem levantava do chão, escutava as pessoas dizerem “é só você fazer isso”, “você já está lá”, e eu não conseguindo somar tudo isso na cabeça e muito menos obter algum resultado, é óbvio, me senti um pouco frustrada. Aí que tá, comecei a compreender que escalar é realmente dar um passo de cada vez, que talvez um passinho faça toda a diferença, é refletir sobre, projetar e que se realmente acreditasse, ia chega lá sim. Foram alguns bons pegas no boulder “bem vindo” para eu realmente me sentir bem-vinda à casa da cobra. Era hora de trabalhar a paciência. Mas como fazer isso se tenho que externalizar tanta coisa? Se já não bastasse aprender um jargão utilizado no gueto e que quando falavam de “reglete”, “abaulado”, “calcanha”, “beta”, hãnn? Era hora de silenciar e observar. Percebi então, que minha força física não poderia caminhar sem se conectar com a minha capacidade de meditação, então me integrei à prática que em muito me acrescentou.


A partir disso, muita das construções sobre a vida se propuseram à reflexão. Ter hábitos tão somente individuais não faziam mais sentido, afinal ninguém escala sozinho né, um cuida da/o outra/o, as minhas práticas alimentares não cabiam mais, faziam meu corpo pesado, muita das vezes eram inconscientes e na real, me alimentava pra encher a barriga e isso não me proporcionava a energia necessária. Estava de alguma forma desconectada com o meu corpo físico. Nunca fez tanto sentido a frase “você é o que você come”. E nem imaginava que o esporte me traria essa reflexão. Para além disso, senti uma necessidade de me conectar comigo mesma a partir do zero. Confrontei estereótipos de beleza, instituídos por essa sociedade de consumo e que torna nós mulheres escravas de padrões e comecei a enxergar aquilo como algo que me agredia, era pouco, eu queria me despir de tudo e acessar a essência da coisa toda, foi aí que raspei a cabeça. Os momentos que seguiram daí em diante, foram de resistência tanto dentro do ambiente familiar como no mundo, como ser mulher que rompe com um determinado padrão é difícil hein?
Entra lua cheia, sai lua cheia, entra lua minguante e lá estava eu, dentre os ciclos e reflexões, tendo que cumprir com outras obrigações que também ocupavam um lugar importante na vida, a formação profissional e as responsabilidades financeiras. Me desdobrava para dar conta do que me propus, estagiava com geoprocessamento em um órgão público, estudava, fazia bicos em eventos nos finais de semana, e minha irmã que na época tinha 11 anos viria morar comigo sob guarda legal e isso mudaria todos os meus planos no momento, e assim fui me afastando do esporte, escalava na pedra uma vez ou duas por mês, já não conseguia treinar, tinha pouco tempo pra mim, muito menos pros meus amigos, ganhei mais dez quilos. O que me fortaleceu mais nesse momento foi servir no Santuário, casa espiritual universalista, onde comungava da sagrada medicina Ahayuasca. Mas em tudo, sentia que faltava algo, precisava retomar o esporte, até porque sentia que ainda faltava algo! E não de forma linear, mas cíclica como é a vida, me formei em Geografia, e fui aos poucos retomando o sonho (digo sonho porque chorava de aflição de não escalar e era o que mais me fazia feliz).


Tá, mas e ai? Começar do zero, mais uma vez, nem preciso dizer que tive que ter muita paciência, porque né, voltei pros Vzeros pra então seguir pros V1/V2. Organizei meu tempo e comecei a treinar. Lembro que escalava muito vias, projetei alguns 7a’s, entre eles um bem especial, no Belchior, a Travepestre. Aprendi muito naquela linha, a superar meus limites, a me centrar no agora, na execução da movimentação. Até que em janeiro de 2017, cadena! Ainda na mesma casa de grau, malhei a via dos bonecos até somar as partes e compreender cada movimento. Escalei num mesmo dia, três vezes, socorro! E com o apoio de uma amiga (gratidão Marília!) fui lá na terceira e cadenei. Memorável.


Outro momento especial foi escalar a via Língua de Fora no Morro do Macaco, meu primeiro 8A, ali foi amor a primeira vista. Enquanto as pessoas diziam “tenta algo mais fácil, nay!”, “já mandou aquela outra via ali?” e tentavam a todo custo me tirar dela rs, confesso que nem estava muito olhando a graduação, queria só escalar, viver e com o sentimento – racionalbarraemocional – no signo de touro, queria fazer sem sair pela esquerda ou direita no primeiro crux, eu queria pela frente, do jeito clássico mesmo. E ainda assim, lá de baixo escutava gritar “por quê você não dá uma fugidinha pela esquerda?”, resisti. Um dia escalei a linha anoitecendo e com uma queda no segundo crux, cheguei lá em cima enxergando poucos pés, cansada, mas com sentimento de trabalho realizado, no final de semana seguinte rolou a tão sonhada cadena.
Voltei com gás pros boulders, oba! Foram muitas semeaduras e colheitas, muito companheirismo, o que é essencial e fundamental na escalada. Lembro que mandei o Green Time na insistência, era madrugada e meu bonde já estava todo dormindo (Mih resistiu comigo!) no dia que conheci ele também conheci o boulder Força do Medo (V4). Nisso, foi o THC (V5), o Beija-flor flash (V5). E Minha última conquista, na sexta 04 de outubro, foi o Muy THC (V6), linha que tenho um sentimento muito especial, inclusive no dia a lua estava em sagitário e a cadena rolou de primeiro pega!


Uma viagem ficou no meu coração, a ida a Milho Verde em agosto, ali me conectei à escalada de maneira muito única, na verdade eu sempre digo, me redescobri como escaladora. Estava em um momento de descoberta na escalada, de conexão, escalei todos os dias possíveis. Lutei pelos projetos, mandei V5 flash, saiu V6, escalei inúmeras vezes um mesmo projeto (V4). Nossa primeira parada foi em Conceição do Mato Dentro, e nos dois primeiros dias de viagem sofremos um assalto, no dia seguinte seguimos para Milho e mesmo com o acontecido nada tirou a nossa vontade de continuar a trip, tínhamos tudo o que precisávamos para escalar, saúde, alegria e amigas/os por perto fazendo toda a vibe, o que fez todo sentido.


Fazendo um adendo, observo muita das vezes o ambiente da escalada como um lugar ainda predominantemente masculino e por vezes nós mulheres somos submetidas a comentários e momentos misóginos e machistas, mas acredito que a cada dia a mulher tem ocupado o espaço no esporte que é seu por direito e que deve ser exercido com respeito e equidade de gênero, me motiva ver a evolução de outras mulheres nessa jornada e são muitas as que me inspiram a crescer. Sigamos!


A vida na escalada foi fluindo junto com outras importantes áreas da vida, tudo em seu tempo. Há muito ainda para caminhar, mas hoje busco viver o que acredito e onde me faz bem, moro na cidade e estudo o urbano e a questão cultural na pós-graduação. Um ambiente com suas vivências me auxiliam em muito para compreender a outra realidade e quebrar a dita dicotomia entre a cidade e a natureza. Sou professora de geografia, busco sempre trazer essas reflexões para a sala de aula, sobre qual é o nosso lugar no mundo, que um outro mundo é sim possível e que se algo fere a nossa existência, devemos ser sim, resistência! A sala de aula também é um lugar que me motiva a me conectar com a/o outra/o e que o mundo é repleto de diversidade. É preciso ouvir e há tempo para falar.
Hoje, reconheço que esses processos estiveram intimamente ligados ao meu autoconhecimento, nenhuma das conquistas fariam algum sentido se eu não estivesse de alguma forma me permitido acessar as minhas intimidades mais protegidas e secretamente guardadas, e levo pra mim uma indagação que sempre me faço quando estou em conflito entre fazer o que se ama, ou cumprir com as funções ditas sociais, vida é para se viver! E sonho é feito para se realizar! O que você está fazendo ainda que não está vivendo o sonho? Kmon!

Fotos do arquivo e insta da Nay: Sarah Novaes, Thiago Tatu, Gabriel Marx, Yurika.

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