Nova Gabriela!

Meu nome é Gabriela, tenho 27 anos e meu primeiro contato com a escalada foi há 7 anos. Nos últimos 5 anos tenho estado bastante motivada e vivendo a escalada intensamente, ainda que siga uma carreira paralela de pesquisadora, a qual tenho também bastante apreço. Agradeço à Ma, idealizadora do blog, pela possibilidade de realizar uma reflexão mais profunda nessa Lua Nova de Escorpião, que simboliza o renascimento das cinzas. Vejo a nossa amizade como um lugar seguro de compartilhamento de sombras e retomada da luz, e fico feliz de poder trazer um pouco dessa energia para esse lindo projeto que é o DesEscalada. Gostaria, então, de trazer uma reflexão sobre o processo de transmutação de desconfortos, expectativas e medos.

Tenho a escalada como um lugar de descoberta pessoal, onde posso testar meus limites e me desenvolver positivamente como pessoa. Sua prática me permite conhecer vários dos meus desafios internos, seja pela experiência do risco, seja por questões da minha personalidade. Gosto de pensar a escalada como um lugar em que eu possa desfrutar desse processo de auto-conhecimento – ainda que nem sempre seja fácil. 

Iniciei na rocha praticando escalada esportiva e isso fez com que eu buscasse estudar e me aprimorar tecnicamente logo no início, buscando fazer um curso básico e realizar leituras de aprofundamento. Manipular cordas, mosquetões, fitas e freios era algo bastante interessante que me despertava curiosidade. Escalei muitos quartos e quintos antes de começar a olhar para os sextos. Antes de escalar eu já gostava de acampar e ficar em contato com a natureza, então a escalada surgia como apenas mais uma atividade para esses momentos. Fui me preocupar com esse negócio de “cadenas” mais de um ano depois de minhas primeiras idas à rocha.

Há outros lados da escalada que me atraem bastante: adoro viajar por aí, adoro contemplar a natureza e gosto muito de me movimentar, fiz alguns anos de dança contemporânea e balé clássico e tenho certa experiência com danças urbanas e outras performances corporais. Danço até hoje, com ou sem aulas. Sempre tive uma veia artística e vejo a escalada como uma arte do movimento. Para mim, boas escaladas não são dadas pelo grau de dificuldade, mas pela forma como seus movimentos são executados. Prezo por escalar e cair de maneira consciente e gosto do desafio de alcançar um alto nível de consciência no limite de força e técnica. Escalar é arriscado e a adrenalina deixa tudo muito latente.

Apesar da minha paixão, gosto de ter um ritmo mais tranquilo e não fico o tempo todo em que estou na falésia ou nos blocos ocupada com a atividade, mesmo hoje em dia. Fui uma iniciante totalmente focada na diversão de tentar escalar, e levava minha câmera para tirar fotos em parte do dia de escalada. Às vezes eu gosto de sair caminhando e subir blocos fáceis, observando as plantas e a fauna local. Sempre faço amigos caninos e felinos nas minhas viagens. Depois de ter começado a me dedicar mais assiduamente, por vezes me martirizava por não estar atrás de algum resultado com a escalada quando eu estava mais interessada em passarinhos ou estrelas, e ia para casa com uma sensação de culpa, principalmente se alguém comentava isso. Mas a real é que às vezes gosto apenas de admirar as pessoas escalando ou de permanecer no estado de contemplação que o outdoor me traz. Ultimamente, quando canso de treinar no ginásio, tenho brincado de invertidas, acrobacias e danças com as minhas amigas e esses têm sido momentos tão especiais quanto as cadenas do dia.

Somente quando comecei a escalar boulder que a preocupação com o rendimento começou a fazer parte da minha escalada: eu passei a querer fazer coisas mais difíceis. Minha primeira ida à Cocal para boulder foi no Bem-Vindo e eu lembro que eu não tinha a menor noção de como subir aquilo, parecia impossível fazer qualquer coisa: eu escalava basicamente no vertical com agarras até então. Lembro que as primeiras idas para Cocal eram marcadas por inúmeras tentativas, abrir a mão nos agarrões de quartzito e ir pra casa com a cadena da pedra infantil, rs… Com o tempo conquistei minhas primeiras ascensões e fui me tornando cada vez mais motivada a desenvolver minha força e minha técnica através do boulder e da escalada de vias mais difíceis. Aos poucos fui evoluindo e percebendo que o processo não é linear, mas sinuoso, e que os meus ciclos pessoais possuem relação com o momento da minha escalada, ainda que não seja em uma relação de causa e efeito.

Descobri, então, um outro aspecto de fascínio e desafio: a imprevisibilidade. Vivi momentos em que estava me sentindo ótima e confiante e não consegui desenvolver muito e isso não foi importante, momentos em que isso foi importante e acabou por me abalar psicologicamente, situações nas quais estava me sentindo mal e insegura no início do dia e ao final tive ótimas escaladas e, por fim, aqueles dias que tá tudo ruim mesmo e é isso aí. Percebi a importância da constância e da paciência no processo, que é composto de altos e baixos para todas e todos, e do auto-acolhimento em momentos de baixa.

Querer evoluir na escalada não é simples: por diversas vezes me vi bloqueada em um movimento, uma ideia ou um medo que me impossibilitou seguir adiante. Já fui grosseira por estar adrenada, já joguei sapatilha no crash devido à frustração e já chorei depois de passar um lance exposto por mais de uma vez. Já deixei de escalar por medo do fracasso, ou por um medo irracional da queda. Já me senti ótima e de repente passei por tudo isso de novo, e me senti ótima novamente. Me percebi perfeccionista e agradeço à escalada pela oportunidade de lidar com esse aspecto da minha personalidade. Tenho medo de cair mal ou de sofrer algum acidente na rocha. O lado positivo disso é que escalo com consciência e responsabilidade: aprendi a mensurar risco, arrumar minha própria base no boulder e equipar e guiar vias com consciência. Escolho a dedo quem me dá segurança. Aprendi a mapear zonas de queda e não-queda, e serei sempre grata ao meu amigo Veloso por compartilhar os seus aprendizados comigo no início da minha escalada. Quando entro em uma passada exposta na esportiva, na montanha, ou até mesmo no boulder, sei onde estou, o que estou fazendo e como proceder: claro que nem sempre consigo manejar tudo isso com a maturidade necessária, mas este é o processo.

Esse ano, depois da minha primeira temporada patagônica, a qual passei mais de um mês acampada na montanha, descendo apenas para portear comida, tomar banho e dormir em uma cama por uma ou duas noites, fiquei bastante cansada do desconforto – o frio, o vento e o risco – e percebi que isso abalou minha performance na esportiva, principalmente porque eu pratico esportiva basicamente no Macaco, onde as vias costumam ter certo grau de exposição. Consegui me desvencilhar um pouco dessa sensação quando fui ao Cipó e pude escalar vias com maior liberdade de queda, mas como estou dedicada ao boulder este ano, ainda não tive a oportunidade de testar minha mente na esportiva desde o Cipó, em junho. Sei que será um processo de readaptação.

Quando estou muito adrenada, gosto de fazer o seguinte exercício: escolho uma via de escalada em placa ou de baixa exposição (E1) ou alguma que eu já conheça para avaliar meu estado mental e seguir para objetivos mais difíceis (não necessariamente em grau de dificuldade). Mesmo assim, sou bastante cautelosa e isso faz com que meu processo seja “lento” comparado ao de outras pessoas. Raramente escalo muitas vias no mesmo dia, o que parece infame na sociedade da performance. Mesmo assim, venho aprendendo a amar cada vez mais isso – me sobra tempo para olhar os passarinhos.

Lidar com a frustração é algo por vezes extenuante, mas que faz parte do processo. Vejo que a prática, ao menos para mim, caminha junto com uma necessidade de cultivo da auto-estima: eu não vejo sentido em praticar algo que não me dá prazer, e sem um estado mental tranquilo, a escalada pode se tornar algo bastante desprazeroso. Viver a escalada, com projetos ou sem, sabendo administrar as expectativas e me acolhendo diante desses momentos de mar revolto vem sendo uma experiência de grande fortalecimento pessoal. Através da escalada tenho a oportunidade de descobrimento da minha potência por sua abertura ao vazio e pela experiência sensível da vulnerabilidade.

Na última minguante, por exemplo, estava me sentindo bastante desanimada com meus resultados na rocha e me percebi pesada nos treinos da semana, pois minha menstruação estava por vir. Isto fez com que eu baixasse as minhas expectativas em relação à escalada. Decidi competir em um festival de última hora pensando apenas em apoiar a Associação de Escalada a qual faço parte e focando na diversão, pois haviam alguns anos desde o meu último festival e este seria o 2º ou 3º da minha vida, sendo que eu não estava em uma boa semana.

Com isso, quando o festival começou, pensei em uma estratégia que seria interessante para aquele sistema de rankeamento e ao mesmo tempo prazerosa para a minha escalada. Me diverti do primeiro ao último minuto, e acabei conseguindo meu primeiro 1º Lugar em um campeonato de escalada.

Lembro que quando encadenei a Via do Boneco no Macaco foi da mesma forma. Estava super emotiva, chorei na trilha porque me sentia cansada, e consegui encadenar no segundo ou terceiro pega, avançando para a parte de cima, quando caí na 3a ou 4a costura após a primeira parada. Desci reluzente naquele dia e, claro, na volta dei um mergulho no pocinho que seu Erino carinhosamente arranjou na trilha que passa por sua casa.

Por fim, gostaria de falar um pouco sobre a importância do compartilhamento de experiências entre mulheres. Eu prefiro evoluir em sintonia com companheiras escaladoras, pois sei que além dos desafios inerentes à prática, vivemos em uma sociedade na qual somos ensinadas a ocupar nossos corpos com o único objetivo de agradar o patriarcado e a idéia de subversão desta ordem que a escalada proporciona me atrai muito. Sempre tive um espírito libertário e entendo revoluções como processos coletivos. Através da escalada, me conectei intimamente com meu corpo e pude reconhecer minha força, minha potência e minha humanidade. Conseguir estimular isso em outras mulheres me traz muita alegria!

Desde 2017 tenho trabalhado com eventos esportivos na UBT, academia onde trabalho, treino, conheci meu companheiro e fiz muitas amizades. Nesses dois anos de trabalho tive a oportunidade de iniciar o projeto UBT Para Elas, que ocorre de três a quatro vezes por ano e consiste em um momento de troca entre mulheres e também como ponto de apoio de projetos femininos como o Cocalcinhas. O objetivo do projeto é criar um espaço de segurança, compartilhamento e amizade. Tenho também me dedicado a convidar basicamente amigas mulheres para meus bondes e privilegiar a escalada com amigas, procurando ter momentos de troca e fortalecimento mútuo, pois vejo que escalada é um terreno extremamente fértil para nós, afinal, está intimamente relacionada com a Terra.

* Fotos do aquivo pessoal da Gabi.

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