Crescente Deborah!

A escalada chegou na minha vida inesperadamente em uma época que eu realmente buscava o meu lugar. Sou artista, gosto de cantar, atuar, tocar violão, falar, conhecer pessoas novas, viajar, ensinar, explorar o meu mundo interior, estudar assuntos místicos e pensamentos fora da caixa. Na minha mente há um mundo de possibilidades, mas sempre senti dificuldade de me comprometer, colocar a cara a tapa e ir até o fim do que fosse que me interessasse. Sempre idealizei demais e vivia racionalizando a todo momento. Eu queria muito sentir, me entregar e viver momentos de epifania, porém ao mesmo tempo queria ser reconhecida e executar trabalhos de alto patamar sem ter que passar por processos de erros e acertos. 

Meu nome é Deborah, tenho 24 anos, aquariana com lua em libra e ascendente em leão. Quem escala imagina como esse esporte me iluminou. Das alturas da minha idealização consegui trazer meus pés ao chão quando conheci o Bouldering em Nova York, a cidade onde sempre senti que iria encontrar o meu rumo. Experimentei a escalada nas academias que estavam se tornando bastante populares nos EUA, me dei muito bem, pois sempre fui muito boa em esportes, apenas nunca tinha encontrado na infância um esporte no qual fluía, já havia sentido uma amostra dessa sensação quando conheci o parkour há alguns anos atrás, mas nenhum sentimento de certeza. Algo ainda estavam faltando.

Logo no primeiro momento que conheci a escalada, notei a quantidade de mulheres escalando na academia e como elas eram incentivadas a darem o seu melhor. Isso significava muito para mim. Já havia sofrido bullying na infância por ser a única menina jogando futebol com meninos e mais tarde alguns traços desse machismo também se mostravam em outros esportes que pratiquei e isso me fez esconder muito da minha verdadeira força, principalmente de mim mesma. Eu tentei por muitos anos ser e me comportar de uma maneira a esconder esta força, porque supostamente era mais belo e mais aceitável como mulher na sociedade que somos criados, mas a cada ano isso só me afastava do meu verdadeiro potencial.

Uma comunidade amigável, respeitosa, unida e cabeça aberta era tudo o que eu precisava pra cada vez mais mergulhar nesse novo mundo que se abria na minha vida. Eventualmente me encontrei com as competições e festivais de escalada nas academias e para a minha surpresa, me saí muito bem. Gostei daquilo. Me incentivava a escalar com mais propósito nos meus treinos, me estimulava saber que tinha uma competição chegando no meu calendário. Era quase como quando estava para estrear em uma peça de teatro nos tempos que me dedicava à ele. Precisava me preparar da melhor maneira que podia para dar tudo que tinha em um momento reservado enquanto pessoas estariam presentes para prestigiar e assistir a nossa “performance”. Fui fisgada e daí em diante continuei a competir. Melhorei muito a qualidade da minha escalada nesta temporada e durante um ano participei de aproximadamente uma competição por mês.

Nos EUA, por conta das longas estações de frio, cidade grande e rotina que vivia, conheci pouco do lifestyle da escalada em rocha, apesar de ter muita vontade. Voltei ao Brasil decidida a continuar competindo e a explorar a escalada na rocha. Participei do campeonato UAI em Uberlândia que me deu a oportunidade de competir pela primeira vez no modelo de isolamento. Foi uma competição de grande desafio físico e mental. Sofri algumas lesões e tive mais clareza da necessidade de melhorar tecnicamente e de adotar um treino mais sério além de aprender com a frustração de não chegar ao pódio por muito pouco. Adentrei também paralelamente em um terreno desconhecido e fora da zona de conforto que foi começar a escalar na rocha com mais frequência. Novas habilidades eram exigidas e precisavam ser desenvolvidas.

Na rocha estou aprendendo sobre como a precisão da movimentação é importante. Não mais me encontro em um ambiente controlado e protegido como nas academias de escalada. É necessária a execução de técnicas mais específicas. Até então, escalava sempre intuitivamente e de maneira dinâmica e explosiva. Na rocha estou entrando em contato com a necessidade de uma escalada de melhor leitura, mais estática, de melhor resistência e de novos posicionamentos corporais. A mente é um outro fator de extrema importância a ser dominado escalando na rocha. A tomada de decisão para a minha segurança e a do outro deve ser treinada junto com o entendimento do que é um perigo real. Assim minha energia pode ser melhor direcionada para maior performance. É necessário maior disciplina, paciência, força de vontade e experimentação. Eu vejo a rocha como uma verdadeira escola, e mais recentemente, no meu processo de aprendizado com a escalada esportiva (já que sempre competi apenas como boulderista) estou aprendendo a me entregar aonde não tenho controle e a agir aonde tenho. É um processo. Eu tendo a me cobrar muito, me frustro e as vezes tenho dificuldade de respeitar meus ciclos interiores exigindo sempre resultados. Porém, apesar de nem sempre lembrar quando estou no auge do veneno, resistindo a uma queda em uma via que eu acho que deveria mandar sem dificuldade, no fundo eu sei que a experiência de estar vivendo isso é o verdadeiro aprendizado.

O fim que busco é esse processo afinal, porque viver a escalada em si é me expressar, sentir, me superar. Tudo aquilo que sempre quis compartilhar com o mundo finalmente acontece sem complicações, porque quando escalo eu simplesmente sou e este é o melhor exemplo que posso dar. Passei uma temporada em Brasília e conquistei a segunda colocação geral na categoria Profissional do campeonato regional realizado pela Associação de Escalada do Planalto Central AEP. Conheci muitos escaladores e escaladoras que me ensinaram e me inspiraram. Sinto que também inspirei muita gente a acreditar que podem ir além. Cumpri a minha missão e agora estou novamente na estrada, conhecendo a escalada em outra cidades do Brasil, me preparando para competições ainda maiores, desenvolvendo o meu leque de habilidades dentro deste esporte que tem tantas possibilidades, modalidades e estilos. Sinto que hoje assumo a minha força e admito que ainda tenho muito o que aprender para me tornar a melhor versão de escaladora e de pessoa que posso ser, até porque são uma coisa só. Como escalo, revela como vivo e vice versa. Sinto uma enorme gratidão de estar vivendo da escalada cada vez mais profundamente e por todas as pessoas envolvidas e dedicadas ao crescimento deste esporte maravilhoso que transforma e empodera tantas vidas.

Fotos: Lorraine Ciccarelli, Caroline Ozzy, Lucas Castor e Theo.

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