Cheia Mayani!

16 Luas, 16 meses.

É assim que faço a contagem dos meses desde minha mudança para Goiás. 

– Oi! Sou Mayani – mas você pode me chamar de Maya! Sou paranaense e tenho 31 anos. Moro em Goiás há 16 luas cheias, e me apaixonei pela escalada há 16 luas minguantes. Vem comigo nesse textão que eu vou te levar junto para uma pequena grande viagem (ou talvez, algumas viagens)!

Pico do Abrolhos – Marumbi, Morretes PR (maio de 2019).

Era noite de lua cheia e as 19:30 ela já me saudava pela janela do carro, sinalizando que estaria comigo durante aquela viagem. – Oi Lua Cheia! Estamos pegando a estrada sentido Minas Gerais. Quer dizer que você vai nos acompanhar nessa viagem? Obrigada! Como sempre, você está esplêndida! Olha, já se passaram alguns quilômetros e é quase meia noite. A noite está tão linda, tão clara, parece que o dia está amanhecendo, quanto brilho! quanta energia linda, Lua! Pode descansar pai, eu posso e vou assumir o volante agora. A vista da Lua mudou da janela direita para a janela esquerda! Que prazer viajar contigo Lua cheia, obrigada pela agradável companhia, agora é a sua hora de descansar, o Sol está para nascer e continuar a iluminar meu caminho! Chegamos em Uberlândia e no dia seguinte atravessamos a divisa do estado de Goiás, minha nova vida estava prestes a começar. 

Desde então, toda lua cheia é um novo ciclo! E foi por isso que escolhi a lua cheia para me representar!

Agora, gostaria de voltar no tempo para contar um pouquinho sobre mim e a escalada.

O dia era 01 de julho de 2018 e às 05:30, com a lua cheia coberta pela neblina, começamos nossa caminhada para minha primeira montanha, o Marumbi! A subida foi incrível, a chegada emocionante, a volta com gostinho de quero mais. E desde que eu voltei do Marumbi, fiquei me questionando – o que faziam 2 pessoas (quase que imperceptíveis) agarrados na parede de um dos picos, avistadas enquanto voltávamos pela trilha vermelha? Estariam fazendo rapel? Ouvi de alguém: “… não! parece que eles estão escalando a Esfinge!” Mas e nós, não estamos escalando a montanha também? “… sim, mas ali é diferente!” De longe, parecia um casal. Ao término da descida, ainda encantada com a magia daquele lugar, avisto de longe, próximo aos trilhos do trem, o casal de escaladores carregando, em seus ombros, cordas e mochilas. Aquilo mexeu comigo.

Janela aonde avistei os casal escalando. Nas minhas costas a Esfinge, um dos picos do Marumbi (maio de 2019).

Não demorou muito para o Universo me sinalizar que existia a ForVibe, uma academia de escalada em Cascavel, cidade aonde residi por 10 anos. Mas a zona de conforto só me fez procurar conhecer o lugar no começo do mês de agosto – o mês da mudança! A lua era minguante. Coragem e curiosidade finalmente me moveram, dei o primeiro passo e lá estava! Meus olhos brilharam! Recebi todas as orientações, alonguei e fui pra parede. Comecei escalando aleatório e depois seguia a sequência de cores. Que incrível! Eu amei e no outro dia lá estava novamente e não demorou muito para eu descobrir o significado de dedos fritos. Dia sim, dia não, a missão era viver a vibe da ForVibe: escalar. Mas apesar de estar muito feliz com a descoberta, bateu uma tristeza, pois eu só tinha 20 dias e sabia que passaria tão rápido, pois a mudança estava para acontecer. Eu tinha um desejo muito grande para realizar nesse curto período de tempo: escalar na rocha. Resolvi quebrar a barreira da vergonha e fazer o meu pedido, e depois de ouvir uma notícia ruim e outra boa, soube que o meu pedido seria atendido (Obrigada AnaJu)! 

Espera, em que Lua estamos? Ah, olhei aqui e era lua crescente! Minha primeira vivência na rocha, meu primeiro acampamento. Uaaauuuu, aonde aperta para voltar? Mas já acabou? Foi tão rápido… preciso mesmo ir embora? Sim, e amanhã é segunda feira, meu último dia na academia. 

Primeira vivência de escalada no Juvina Old West, Cascavel PR (agosto de 2018).

Depois desse um final de semana inesquecível, prontamente cheguei na academia – pois eu tinha um projeto antes de ir embora: a linha vermelha, que já estava isolada. Era só mandar e me despedir da galera! Quando, de repente, um deslize e senti meu tornozelo torcendo umas 5 vezes… Sim, uma lesão com 3 ligamentos quase rompidos, uma bota ortopédica, uma mistura de sentimentos aqui dentro – e revirando nesse momento em que escrevo, não encontrei sentimentos nem de arrependimento nem culpa! Ainda bem!!! – e um longo caminho a percorrer.

E por falar em caminho a percorrer, lembra do meu diálogo com a lua? É nesse momento que ele acontece!

Com um tornozelo lesionado, novo estado, nova casa, família distante, novas amizades, novos profissionais e um caminho para percorrer, esse era o desafio, regenerar (Obrigada Bia)! Tudo foi se encaixando e depois de pesquisas e sugestões nas redes sociais, descobri que havia escalada em rocha em Goiás, mais precisamente em Caldas Novas, e uma academia de escalada em Uberlândia, ambos pertos de Catalão. 

O dia do recomeço? Dia 02 de fevereiro de 2019, a Lua é Nova, a cidade é Caldas Novas, a vibe é super high, a via é Sonoras, só agarrão… de top rope e com a saída meio atrapalhada, dou uma isolada, me entendo e conquisto a primeira cadena, com direito a antebraços “tijolados” que pensei que nunca mais voltariam ao normal! A via mudou, estamos no Só para Elas, um positivo com regletes de cristais, a missão era guiar – e pra minha alegria foi finalizada com sucesso! 

Eu estava de volta. 

Via Sonoras, setor de vias no Fiu – Caldas Novas GO (fevereiro de 2019).

Sim, já é outro final de semana, a lua é crescente, o dia é sábado e choveu em Caldas Novas… não poderemos escalar vias, mas alguns boulders estão secos e tem a caverna! Socorro! Quem foi que inventou o boulder? Não vai rolar, não está rolando, mas estava rolando para uma galera de Uberlândia, Andressinha, Samanta, como elas conseguem??? Parabéns meninas, mas boulder não é pra mim (ainda.. né Andressinha) Na verdade, eu gosto é de via! Já era domingo, dia de caverna, e a Adrean escala lindamente – boulder, como consegue? Ela é tão forte! Retorno para casa, frustrada, com uns 10 boulders entrados e 1 cadena de V0.

E foi assim meu recomeço, com a escalada me ensinando. Nesse esporte, para mim, ou você ama ou você odeia, não existe meio termo. Ele te ensina que a caminhada é feita de aprendizados, dedicação, humildade e gratidão. Momentos de vitória e momentos de derrota. Tudo depende de como você encara! A natureza me desafiou e eu entrei no jogo. Vamos aprender a escalar! Não importa se é via ou boulder, é escalada, e para cada dificuldade, sentia que eu saia mais forte!

E olha que legal! O mês é maio, a lua é cheia, a vibe é Bocaina Will, lá na serra da Bocaina. Acabo de encadenar a via Para Raio de Maluco e à minha esquerda a Lua cheia me acena! – Oii, acabei de nascer no horizonte e estou aqui para te parabenizar  Auuuuuuuuuuuuuuuuuu! Que vista, que vibe, mas espera, preciso me concentrar para desequipar a via, temos planos para noite, partiu escalar boulder! A lua cheia mudou de cor – era noite de Lua Azul e na floresta, a noite virou dia! Lembro de mais algumas cadenas conquistadas, e no dia seguinte, a menina que não escalava boulder conquista seu primeiro V3 – chamado Essência – (Andressinha, nunca vou esquecer do seu abraço de emoção).

Na cadena do meu primeiro V3, Essencia, Bocaina Park Araxá MG.

É incrível a conexão que eu tenho com ela, a lua cheia! Curiosamente costuma me acompanhar em momentos inesquecíveis, conquistas na escalada e na vida, uma total imersão para meus instintos que me ensinam novas lições e me tornam mais confiante! 

Posso lembrar, já é mês de julho, caminhando para a lua cheia, estamos em Caldas Novas e a via é Guardiões, um crux com vacas esquisitas, vários betas e um problema a resolver – conquistar meu primeiro 6º sup. 1º pega do dia, descansando antes de voltar para o crux, lembrando dos betas – mão esquerda no segundo reglete, sobe pé direito, mão direita no cristal, mão esquerda no terceiro reglete, mão direita atrás da chapeleta de costura, pé direito alto, costurar a corda e vira um boulder pra continuar a via – hora de agir, e lá vamos nós: – Subiu a mão esquerda e ela não encaixava, voltou para o lugar e subiu a mão direita – uauu ficou bom, mas espera, não era pra ser a mão direita – é a mão esquerda. Mão direita volta para o lugar e vem mão esquerda… poxa… a mão direita ficou tão melhor… muda novamente! Vamos lá, Sobe mão direita no segundo reglete, movimenta pé, sobe mão esquerda no terceiro reglete, mão direita no cristal, pé direito alto, mão direita atrás da chapeleta para ganhar o troféu! Isolado! Yeeeessssss! Eu havia acabado de criar o meu próprio moove, era o meu beta! A cadena saiu no segundo pega e a lua cheia apareceu logo mais tarde para me dar os parabéns! Meu primeiro 6º sup, o portal estava aberto! 1 semana depois saíram mais 2 no arenito do Pico do Mané (Patrocínio Paulista SP) e 2 semanas depois mais 3, junto com meu primeiro 7ª, no basalto do Juvina Old Wes – aonde tudo começou, vocês lembram?

Na cadena do meu primeiro 6º sup, Via Guardiões, setor de vias no Fiu – Caldas Novas GO (julho de 2019).

Eu tenho um sonho ambicioso: aprender escalada tradicional e escalar o Marumbi! Sim, quero escalar a Esfinge. Estou trabalhando para realizar esse sonho e vou fazer o possível para calibrar a data para escalar com ela – por quem sou tão apaixonada – a Lua Cheia, lá na montanha do meu coração, praticando o esporte que eu escolhi para crescer e ser uma pessoa melhor!

Base camp do Marumbim, Morretes PR – ele é lindo não é mesmo?

O céu é o limite e a vida me desafia diariamente a buscar um constante equilíbrio entre responsabilidades de uma pessoa normal e as alegrias que o universo da escalada me presenteia. Tenho evitado minha zona de conforto e procurado conhecer esses lugares incríveis, contemplar e conectar-me com a natureza. Não faço da escalada uma obrigação nem um status, mas sim, uma vivência prazerosa e de crescimento pessoal. Nesse pouco tempo de escalada, sinto que tudo é possível e as pessoas que participam dessa caminhada fazem toda a diferença na minha vida!

A todas e todos, desejo muitas luas cheias de alegrias, conquistas e aventuras, muitas estradas levantando poeira, muitos picos e montanhas para escalar e pessoas maravilhosas para compartilhar!

Na cadena da via 1,99, meu segundo 6º sup lá no Pico do Mané, Patrocínio Paulista SP.

E você, já admirou a lua hoje? Aproveita a noite, pois ela estará linda e toda iluminada!

Crédito das fotos: Douglas Schon, AnaJu, Brandon, Anelita, Paulo, Cadu.

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