Minguar é curar!

Montanhismo contra o machismo
Vamos conversar sobre isso?

Desde muito jovens despertamos para a importância da igualdade em nossas relações. Respeito, compaixão e igualdade. Mesmo bem pequenos, sem entender conceitos ou significados complicados, sentimos empatia por outros seres. Sabemos intrinsecamente que somos uma coisa só, então vemos o outro como nós mesmos. Nem mais, nem menos.

Com o passar dos anos, isso muda. Somos “moldados” pelas situações e local onde fomos criados, a cultura que aquele lugar e família vivem, nossa socialização primária, perpassando pelos nossos primeiros contatos com uma religião, time de futebol, nossa primeira língua etc. Como não poderia deixar de ser, entramos em contato com aquele comportamento muito comum, expresso por opiniões e atitudes que demonstram a ideia errônea de que os homens são “superiores” às mulheres.

Assim nos desenvolvemos em meio a uma sociedade patriarcal e machista.
Esse fantasma é passado de geração em geração há muitos e muitos anos, tornando doentes as relações entre nós. Tornou-se imprescindível abrir o diálogo sobre igualdade pois esta desconstrução é longa, requer persistência e muita conversa.

Quantas vezes nos pegamos agindo de forma “machista” com outras mulheres, e com nós mesmas, por costume, por repetir um padrão de comportamento esperado para uma determinada situação? Colocar estas questões na mesa é a forma mais eficiente de iniciar uma cura das nossas relações.

Durante muitos anos as mulheres foram proibidas de praticar atividades esportivas. Os argumentos utilizados para realizar esta exclusão circulavam em torno de sua fragilidade/incapacidade biológica, sua condição materna, possibilidade de masculinização corporal e a contestação de sua heterossexualidade. E veja bem, não faz muito tempo isso, estamos falando de três ou quatro décadas atrás.

As atividades ao ar livre consideradas perigosas à grande maioria das pessoas, fazem brilhar os olhos de outras, homens e mulheres. O montanhismo e a escalada, desde a sua origem, trazem relatos de machismos. Por ser um ambiente predominantemente masculino há muito preconceito e diferentes tipos de agressões às mulheres escaladoras. O desafio físico e psicológico da escalada, juntamente ao ambiente natural e fora da zona de conforto, as conquistas de cada um e até mesmo os momentos de frustração, ao mesmo tempo que oferecem ferramentas para a expansão pessoal de muitos, também produzem uma série de pessoas egocêntricas e com uma terrível “falsa sensação de superioridade” e se misturados ao machismo existente no cerne da nossa sociedade, temos como fruto situações de assédio, abuso, desmerecimento e violência contra a mulher escaladora.

A partir disso, surgiu a iniciativa de reunir relatos anônimos de mulheres montanhistas de todo o Brasil sobre experiências de assédio, abuso, machismo e/ou qualquer outra forma de violência contra a mulher na montanha; para uma campanha de conscientização da comunidade.

Sobre o feminismo e sua revolução.

Feminismo é um conjunto de movimento s políticos, sociais, ideologias e filosofias que têm como objetivo comum direitos equânimes e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões patriarcais, baseados em normas de gênero. Advoga pela igualdade entre homens e mulheres. Então sim, somos um movimento feminista dentro do montanhismo.

Veja bem, estamos falando em igualdade de direitos e possibilidades e respeito às diferenças, essa é a grande revolução e não uma guerra contra os homens. É fundamentalmente a procura por aquela consciência que perdemos ao longo dos anos de que somos um, que somos iguais, sem mais nem menos.

Mas afinal de contas, o que é assédio sexual e moral?

Para o dicionário Houaiss, a definição de assédio é “insistência impertinente, perseguição constante”. Vamos começar falando que o assédio traz graves prejuízos para a saúde física e mental de homens e mulheres. Costuma trazer distúrbios como ansiedade, depressão, perda ou ganho de peso, dores de cabeça, estresse e problemas no sono. Quando trazemos isso para a esfera do montanhismo, o que ocorre é um enorme descontentamento com o esporte, causando a interrupção das atividades por grande parte das mulheres e inibindo a entrada de outras.

O assédio sexual é uma manifestação de cunho sensual ou sexual alheia à vontade da pessoa a quem se dirige, praticada por uma pessoa de nível hierárquico superior ou onde há uma relação de poder.

Segundo o site Think Olga, em artigo sobre o assunto, até 2018 a única forma passível de crime de assédio era quando essa violência acontecia no ambiente de trabalho, mas houve uma alteração importante no Código Penal, com a criação de uma nova lei de Importunação Sexual (13.718).

De acordo com a lei, a importunação sexual passa a ser crime descrito como: ‘‘praticar contra alguém e sem sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou de outrem’’. Ou seja, passa a ser crime praticar uma violência moral ou física para expressar o desejo sexual por outra pessoa, sem que essa outra pessoa lhe dê autorização ou consentimento para tal. A alteração traz um marco histórico importante que é a punição do assédio cometido também em espaços públicos, por qualquer pessoa.

Entende-se por assédio moral toda conduta abusiva, a exemplo de gestos, palavras e atitudes que se repitam de forma sistemática, atingindo a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa. No entanto, o assédio moral não é sinônimo de humilhação e, para ser configurado, é necessário que se prove que a conduta desumana e antiética tenha sido realizada com frequência, de forma sistemática. Dessa forma, uma desavença esporádica não caracteriza assédio moral.

Machismo nosso de todo dia…

Maíra Liguori, faz um apanhado bastante esclarecedor de quatro tipos clássicos de machismo que observamos no nosso dia-a-dia: manterrupting, bropriating, mansplaining e gaslighting.

Em tradução livre, manterrupting significa “homens que interrompem”. Este é um comportamento muito comum, quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida pelos homens ao redor.

O termo é uma junção de bro (curto para brother, irmão, mano) e appropriating (apropriação) e se refere a quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito por ela. Quando colocamos uma ideia, muitas vezes não somos ouvidas. E então, um homem assume a palavra, repete exatamente o que você disse e é aplaudido por isso.

O termo man (homem) e explaining (explicar) se refere à quando um homem dedica seu tempo para explicar a uma mulher didaticamente uma situação como se ela não fosse capaz de compreender, afinal é mulher. Mas o mansplaining também pode servir para um cara explicar como você está errada a respeito de algo sobre o qual você de fato está certa, só para demonstrar conhecimento. A verdadeira intenção é desmerecer o conhecimento de uma mulher. É tirar dela a confiança, autoridade e o respeito sobre o que ela está falando. É tratá-la como inferior e menos capaz intelectualmente.

Gaslighting é a violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade. São frases tipo: “Você está exagerando”; “Para de surtar”; “Você está viajando”; “Cadê seu senso de humor?”; E o mais clássico: “Você está louca”.

Vamos trazer tudo isso para a escalada?

Através de relatos e depoimentos, podemos citar exemplos e situações frequentes de assédio, machismo e violência dentro da escalada, sendo os mais comuns:
● Situações e comentários vexatórios, com objetivo de ridicularizar, inferiorizar e desmerecer as conquistas da escaladora ou visando causar medo e desconforto durante escaladas;
● Situações de assédio a escaladoras menos experientes, iniciantes ou até mesmo assediar uma mulher que é nova no “pedaço” e normalmente quando recusado, tecem comentários visando difamar a imagem desta escaladora ou a deixando em situação desagradável durante uma viagem de escalada por exemplo;
● Desacreditar da habilidade técnica ou automaticamente acreditar na falta de conhecimento sobre um procedimento, escalada ou equipamento;
● Objetificação das escaladoras através de comentários sobre sua roupa ou corpo; ranking de roupas íntimas menores ou emprestar um equipamento que vai “evidenciar um atributo” da mulher;
● Relacionamentos abusivos onde o escalador (normalmente mais experiente), desmerece, grita, maltrata sua parceira causando um efeito de dependência onde a escaladora não se sente capaz de realizações independentes na escalada;
● Decotar graduação de vias quando há repetições femininas;
● Situações onde há relação de poder como com guias, treinadores e terapeutas; há relatos de abusos e de gaslighting em todas estas esferas;
● Desconsiderar uma informação ou conhecimento sem motivo aparente.
Estes são apenas alguns exemplos. Para entendermos melhor como funciona o machismo dentro da escalada é fundamental o registro de relatos e depoimentos assim, abraçando nosso “monstro”, podemos desconstruir e conversar.


A importância da Representatividade e da Sororidade.


Hoje há muito mais mulheres escalando do que há uma década e diariamente escaladoras lutam suas lutas para estar na rocha escalando ou representando em campeonatos.

Alguns anos atrás, ao ingressar no montanhismo, as grandes referências eram todas masculinas, hoje há escaladoras em todas as modalidades, fazendo história, quebrando paradigmas e servindo como referência para novas praticantes. Essa representatividade é fundamental. Tenha o hábito de registrar as suas conquistas, divulgar e acolher, sempre que possível novas escaladoras.

A representatividade é vital sem ela a borboleta rodeada por um grupo de mariposas incapaz de ver a si mesma vai continuar tentando ser mariposa

Rupi Kaur

Apoie a escalada feminina brasileira, vibre e divulgue suas conquistas, valorize os coletivos e iniciativas femininas, seja parceirx. Como em qualquer modalidade de esporte feminino no Brasil, há pouquíssimo patrocínio para as escaladoras profissionais ou de elite, assim, o apoio da comunidade é imprescindível para o fortalecimento e visibilidade das mulheres dentro do esporte.

O que fazer? Como contribuir?

Somos um grupo de mulheres com objetivo de valorizar a escalada feminina brasileira realizando uma série de ações de conscientização, divulgação, registros históricos e uma campanha nacional sobre a violência contra a mulher na montanha e na escalada.

Com a campanha #montanhismocontraomachismo temos como principal foco conversar abertamente sobre o machismo no montanhismo. Através de coleta de relatos anônimos que estão disponíveis aqui, criamos um registro amplo que fornecerá subsídios para textos, campanhas online e palestras sobre o assunto. Se quiser compartilhar o seu caso com a gente, esse é o canal:
montanhismocontraomachismo@gmail.com

Finalizando

A caminhada é longa, o cume é duro, mas somente lá do alto vamos ter uma visão do todo, vale a pena o esforço, podemos fazer isso juntxs, desconstruir e reconstruir em novo modelo nossa relação, seja com outras mulheres, homens e com a nossa própria montanha.

E quando precisar de ajuda…

Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência: Ligue 180 (telefone gratuito e 24 horas).

DEAM (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher). Procure a delegacia especializada mais próxima da sua casa. Você pode solicitar o telefone e endereço por meio do Ligue 180.

Ministério Público. Procure o Ministério Público do seu Estado. Você pode solicitar o telefone e endereço por meio do Ligue 180.

“No dia que for possível à mulher amar-se em sua força e não em sua fraqueza; não para fugir de si mesma, mas para se encontrar; não para se renunciar, mas para se afirmar, nesse dia então o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal.”

Simone de Beauvoir

Referências:

● ABUSO NO ESPORTE E A CONIVÊNCIA DA ESTRUTURA Olga Bagatini
https://thinkolga.com/2018/07/06/abuso-no-esporte-e-a-conivencia-da-estrutura/
● A inserção histórica da mulher no esporte. R. bras. Ci e Mov. 2008; 16(2): 117-125. Oliveira G, Cherem EHL, Tubino MJG.
● MULHER E ESPORTE: o preconceito com as atletas de Rugby da cidade de Maringá-PR Motrivivência v. 29, n. 50, p. 17-30, maio/2017 Giovanna Xavier de Moura1 Fernando Augusto Starepravo2 Jeferson Roberto Rojo3 Dourivaldo Teixeira4 Marcelo Moraes e Silva5
● O ASSÉDIO E A LEI DE IMPORTUNAÇÃO SEXUAL Conheça a nova lei e saiba o que fazer e como denunciar esse tipo de violência https://thinkolga.com/2019/02/14/o-assedio-e-a-lei-de-importunacao-sexual/
● O MACHISMO TAMBÉM MORA NOS DETALHES Maíra Liguori
https://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes/
● Machismo na escalada? POR CRIS LJUNGMANN EM 22 DE JUNHO DE 2016 ARTIGOS, REFLEXÃO
http://altamontanha.com/machismo-na-escalada/
● Conselho Nacional de Justiça http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/84036-cnj-servico-o-que-e-assedio-moral-e-o-que-fazer
https://www.amazon.com.br/dp/B00NXYVW4S/ref=cm_sw_r_wa_awdb_t1_oON9CbHEJ945T
https://www.skoob.com.br/livro/pdf/mulheres-que-correm-com-os-lobos/livro:5474/edicao:6608

Texto sensacional de Rosane Camargo.

Um comentário em “Minguar é curar!

Adicione o seu

  1. Amei o texto e as propostas de apoio entre as mulheres.
    Eu quero ver as minas mandando muito e recebendo grandes patrocínios pra poderem se dedicar à escalada ❤
    Bora pra cima mulheradaaaaa

    Curtido por 1 pessoa

Deixe uma resposta para ANA CLARA Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: