Cheia Thaís

Bom, eu fui honrada com esse convite em um momento de muita energia em movimento na escalada para mim, apesar de estarmos todos “isolados” por motivos de pandemia, tem muita energia que pode e merece entrar em movimento, mesmo no isolamento. Passei muitos dias pensando no que eu poderia fazer para dar sentido a minha vida agora e sim, eu ouvi e ouço o chamado da escalada desde que eu era pequena. Comecei a escalar com dois anos de idade, eu escalava o portão da minha casa e ficava entre as lanças, pois eu só sabia subir, mas a vida me ensinou a descer e às vezes até um degrau abaixo daquele que eu merecia estar… Mas isso é papo pra uma roda de conversa entre mulheres escaladoras, elas vão entender do que eu estou falando e para aqueles que são diferentes de mim e gostariam de saber um pouco mais sobre isso, sejam bem-vindxs a esse espaço maravilhoso criado pelo Blog desescalada. 

” … algum conflito interno mencionava que o que eu gostaria pra mim não era coisa de menina.”

Voltando para a escalada, quando criança eu subia em quase tudo que dava, móveis, árvores e, além disso, lembro-me que eu adorava pular o muro do vizinho para tomar banho de piscina. Sim, eu sempre fui uma garota ativa e por muito tempo eu desejei ser a Mel C das Spice Girls com aquele estilo todo esportista de ser. Eu até desejei ser um menino, algum conflito interno mencionava que o que eu gostaria pra mim não era coisa de menina. Sabe a Arya de Game of Thrones? Eu me inspiro nessa personagem, ela me representa.  

A minha história com esportes de modo geral é recheada de coisas leves e inspiradoras, mas eu venho traçando caminhos e querendo ocupar posições de liderança dentro do que eu, agora, descobri que é a minha paixão, a escalada, e o que eu encontro pela frente muitas vezes são barreiras, mas sabe? Eu acho que agora prefiro chamá-las de parede, pois a parede permite que eu aprenda até conseguir escalá-la e vencê-la. É por isso, que ao contar sobre a minha experiência em ocupar ambientes majoritariamente masculinos e hétero cisgênero como é o círculo da escalada e da maioria dos esportes, nem sempre vai dar pra ser confortável e descontraído. 

“Não teve absolutamente nenhuma mulher escaladora que passou pelos meus poucos anos de escalada que não me inspirou de alguma forma.”

Taí, o porquê de mulheres escaladoras serem tão fodas, na minha opinião. Não teve absolutamente nenhuma mulher escaladora que passou pelos meus poucos anos de escalada que não me inspirou de alguma forma. Ver uma mulher escalando pra mim é a coisa mais linda e incrível que existe. Lembro-me bem de acompanhar a etapa final do campeonato de escalada Uai, lá em Uberlândia, emoção é pouco para o que eu senti ali. Jordana Gapito, Deborah Albuquerque, Debora Nasciutti, Camila Macedo, as mulhé tudo forte escalando na minha frente. Não foi pela TV, não foi nas redes sociais, foi ao vivo, toda mina escaladora deveria poder viver essa emoção.

 

Voltando mais uma vez para o que é a escalada na minha vida. Desculpa, sou meio assim de me deixar levar pelas ideias, cabeça de vento, no bom sentido. Tenho lua em gêmeos, sol em touro e ascentende em áries. Não sou nenhuma super conhecedora da astrologia, na verdade, hoje eu prefiro falar que nada sei sobre isso, mas eu procuro esse estudo como ferramenta de autoconhecimento e de acordo com astrologia áries, touro e gêmeos representam as três fases da infância nos signos. Áries representa a primeira infância, tem por objetivo plantar a semente e isso é algo constante que eu tento trazer para a escalada. Plantar a semente em cada mina que tá ali iniciando a prática (não que eu não faça isso com os garotos, mas vamos exaltar a experiência de mulheres nesse texto, obrigada por compreender).  

Eu tenho o privilégio de trabalhar em uma academia de escalada e com isso a oportunidade de ter contato com muitas mulheres iniciantes no esporte. Então, eu as incentivo a mandar ver, sem medo, aquele que toda mulher experimenta ao subir o muro com vários homens em volta. Ao ver uma mina prestes a desistir de um boulder eu repito que a escalada é mais cair do que chegar ao topo, quantas vezes caímos naquela via para conseguir a cadena ao menos uma vez? E a vida não é assim? Quantas vezes nós caímos para apreciar um único momento de glória? E é isso que nos impulsiona, que nos motiva, o ciclo de insatisfação é o que nos faz não ficar acomodados e a semente da escalada pra mim é isso, algo que me desafia diariamente a ser a melhor versão de mim e nesse momento a melhor versão de mim tem sido experimentar o autocontrole sobre as minhas vontades, inclusive a vontade de ir escalar, pois, apesar desse texto ser sobre mim esse momento de pandemia não é só sobre mim. 

“A coragem que a escalada me trouxe me fez não mais enxergar o medo como o meu chefe e sim como o meu guardião.”

O touro, a segunda infância, tem o poder de transformar a semente em substância, faz menção aquelas mais novas responsabilidades da criança, “não se esquece de escovar os dentes!”, “toma banho e já coloca a roupa!”, “Você já consegue pentear o cabelo sozinha, não acha?”. Signo de terra traz consigo o cultivar, ou seja, além de plantar eu cultivo e cuido daqueles se mantém na minha vida. O principal cultivo neste momento tem sido para comigo mesma. A coragem que a escalada me trouxe me fez não mais enxergar o medo como o meu chefe e sim como o meu guardião. Quando eu me dedico a algo como eu me dedico à escalada, eu não deveria ter absolutamente nada a temer, mesmo que o medo esteja ali ao meu lado. Se eu treino o meu corpo eu posso contar com a minha consciência corporal e técnica, se eu treino a minha mente eu posso confiar no meu foco e na minha intuição. Dessa forma, eu tenho o controle sobre mim e o medo, por sua vez, me guarda e não mais me paralisa. Eu tenho cultivado a coragem para enfrentar esse momento de tantas incertezas. Talvez a única certeza seja a de que eu colho o que eu planto e para fazer uma boa colheita é necessário um bom cultivo daquilo que eu resolvi plantar. 

Na intenção de finalizar esse texto, vamos falar da minha lua em gêmeos, sim eu disse intenção porque eu amo me comunicar e o “gêmeos” é isso, fala demais. Traz consigo a terceira infância, das perguntas sem respostas, a pré-adolescência. Quero continuar a ser criança, mas por hora eu já sou uma mocinha, então, porque não transitar pelos dois universos? Hora eu serei uma, hora eu serei outra e farei uso disso quando assim me convier. No que diz respeito a gêmeos há uma vontade intrínseca de estar sempre em movimento e assim se dá com as relações por se tratar da lua. Aqui em casa eu consigo perceber bem que sou uma Thaís pela manhã, outra pela tarde e outra ainda mais diferente pela noite. Ainda não sei exatamente sobre o que falar da escalada referente a isto. Calma, acho que encontrei. 

“… a fase em que eu mais me perdi nessas andanças foi quando na minha adolescência me disseram que eu deveria cumprir certos padrões de beleza, imagina?”

Lembra-se que eu falei sobre o estilo da Mel C, certo? Durante a minha vida eu transitei em vários estilos já andei pelas ruas de coturno, meia arrastão e batom preto. Já usei pulseiras de várias cores e meias coloridas. Mas eu sinto que a fase em que eu mais me perdi nessas andanças foi quando na minha adolescência me disseram que eu deveria cumprir certos padrões de beleza, imagina? Na oitava série uma amiga virou para mim e disse “Vou fazer um esquadrão da moda em você.” Nessa época eu era meio andrógeno, sabe? Eu podia ser facilmente confundida com um menino de 14 anos de idade. 

Desde então eu alisei o meu cabelo, passeia fazer a unha toda semana, fazia a sobrancelha e me depilava. Meu esporte passou a ser aquele que mais agradava ao meu pai, o vôlei. Nada contra, eu até que gostava, mas eu nunca fui boa naquilo sabe? No entanto, eu aprendi a amar aquele estilo, short curto e joelheiras que disfarçavam o quanto as minhas pernas eram finas. 

Ao chegar à faculdade eu não tinha mais tanto tempo para me dedicar àquelas atividades que eu realmente gostava de fazer e sabe que eu nem sabia quais eram elas? Como saberia? Até aqui eu só repetia o que as minhas amigas, o meu namorado ou a minha família falavam que era bom pra mim. Eu estava praticamente sendo levada, calma, eu prometo que já já a escalada vai aparecer nessa história.  Então, o meu esporte preferido passou a ser a academia se é que podemos chamar aquilo que eu fazia de esporte (não me leve a mal, se você é alguém que leva isso como esporte não é da sua experiência que eu estou falando). Sim, eu malhava bastante e fazia dieta. Eu sempre pesei 49 kg e agora eu tinha conseguido alcançar os 54 kg. Uau, finalmente! Minhas pernas engrossaram e eu tinha um popoti. 

“… descobri que eu era livre para expressar o meu ser como eu gostaria que ele fosse …”

Até que enfim, eu terminei um relacionamento abusivo e com isso, peguei algumas matérias no Darcy Ribeiro, na UnB, eu faço engenharias lá no Gama, outra realidade. Bom, nesse novo campus eu tive contato com tanta gente diferente e aquele lugar passou a ser uma libertação pra mim. Até hoje eu digo que o campus Darcy Ribeiro é o meu lugar preferido em Brasília. Ali, eu passei a compreender o feminismo, o racismo de cada dia, as causas indigenistas e todas as quartas-feiras eu estava na batalha da escada. Com tudo isso, eu descobri que eu era livre para expressar o meu ser como eu gostaria que ele fosse e foi aí, no meio desse processo de autoconhecimento, que a escalada chegou até a mim. Ela veio por meio de um ex-namorado, como para tantas outras meninas do climb. Eu sou muito grata a ele por ter me resgatado ao meu habitat natural. A escalada veio fácil, veio fluida e eu redescobri a escalada dentro de mim, pois, eu havia me esquecido dela. 

O meu namoro terminou e com ele eu jamais deixaria a escalada se esvair de novo. Tomei coragem, lavei o rosto e fui explorar esse mundo chamado Climb. Comecei em um ginásio, no qual eu já fazia acroyoga, outra descoberta na minha vida, mas bora nessa se não eu me perco em devaneios. Fui muito bem recebida pela galera e um grande amigo, professor da academia, me pegou pra criar. Ensinou-me toda a base e mesmo que eu não a tenha aprendido tão bem assim, isso me deu estrutura para evoluir e a evolução veio rápido como é a minha impressão da evolução da escalada no corpo das mulheres. Imagina o que foi isso pra mim? Depois de tantos anos frustrada com o vôlei e com a superficialidade da academia. Retornar a escalada foi mais uma fase de libertação. 

Desde então, eu consegui! Assumi o estilo esportista da Mel C. Hoje com cabelo natural, unhas curtas, não feitas e tênis! Sim, tênis e vários. Mentira, só alguns olha o consumismo! Agora eu poderia ser descolada como ela, pois tive a oportunidade de iniciar uma carreira na escalada. Havia um ginásio, que até aquele momento, só tinha homens na equipe e a proposta era de dar oportunidade para que mulheres preenchessem as novas vagas, e foi aí que eu descobri aquilo que eu realmente gostava de fazer, obrigada por isso. Sim, eu gostaria que vocês soubessem a importância de abrir espaços para mulheres na escalada, no esporte e onde quer que seja. Muitas vezes de forma clara e repetitiva. Hoje eu sei o significado que escalada tem pra mim, mudou a minha vida. Acho que a minha transição geminiana de estilos pode parar por aqui. Eu tenho muita, mas muita história da escalada pra contar, mas acho que pra essa lua cheia essas experiências já foram o bastante. Obrigada ao Blog Desescalada por me proporcionar esse momento, de escrever um pouco sobre mim e acho que ficou bem clara a transformação que ambientes assim, abertos, podem proporcionar na vida gente. Se não foi esse o efeito na vida de quem leu, eu ainda me sinto grata por ter sido esse o efeito na minha. Bom, sobre as três crianças dos signos, essa sou eu. 

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